Vale do Jari. Mega investimentos. A história se repete?

A construção da Hidrelétrica de Santo Antônio do Jari e da Rede Energética que integrará os municípios da região do Sul do Amapá e do Oeste do Pará ao Sistema Interligado Nacional comprova que a realização dos grandes sonhos custa um alto preço, que às vezes se camufla no discurso dos grandes empreendedores e dos números das obras faraônicas. Laranjal do Jari, que durante algumas décadas tentou se livrar da incômoda reputação de ser uma cidade criada em função do famoso Projeto Jari e sem lei, na qual imperava a prostituição, a pistolagem e as construções desordenadas sobre o leito do Rio Jari, dá sinais de que voltará a enfrentar sérios problemas sociais em conseqüência destes grandes empreendimentos.

Quando se houve os anúncios de investimentos bilionários a primeira impressão que se tem é que o comércio local será o primeiro a contabilizar os lucros. Não é isso que temos constatado, pois os comerciantes e lojistas de Laranjal do Jari ainda não puderam perceber diferença nas vendas. Há quem defenda a idéia de que a ISOLUX, responsável pelo linhão energético e a EDP, empreendedora da UHE Santo Antônio estariam, juntas, absorvendo grande parte dos trabalhadores que estariam sendo dispensados pela Jari Celulose e suas empreiteiras. Por essa razão, não estaríamos sentindo o impacto econômico nem de forma positiva nem negativa. O certo mesmo é que não dispomos de números e estatísticas sérias para comprovar essas teses, por essa razão, ficamos apenas no campo das suposições.

As notícias de grandes investimentos atraem pessoas de outros lugares e estados que vêm em busca de dias melhores. Essa correria já aconteceu há cinco décadas com o investimento do americano Daniel Keith Ludwig de 1,2 bilhão de dólares. Naquela época o bilionário construiu uma cidade totalmente planejada do lado paraense, Monte Dourado, e tentou de várias formas impedir o crescimento desordenado do povoado que ficava do outro lado do rio, em terras amapaenses; Laranjal do Jari, mas foi em vão. O então “Beiradão” cresceu sobre as palafitas e com elas o estigma de ser a maior favela fluvial do mundo. A imprensa local, às vezes desvalorizada pelos moradores, tem sido um dos meios mais eficazes no combate as veiculações de reportagens nacionais que insistem em mostrar apenas o lado sombrio deste município.

Americano Daniel Keith Ludwig que investiu 1,2 bilhão de dólares na região do Jari na década de 70.

Procuramos os representantes da EDP, empresa responsável pela obra que está orçada em R$ 1,2 bilhão, para que pudessem falar sobre os impactos sociais causados pela contratação de mão-de-obra. Fomos informados que a maior parte dos operários contratados já eram moradores de Laranjal do Jari, Monte Dourado e Vitória do Jari, ou seja, em tese a EDP apenas absorveu a mão-de-obra de trabalhadores que estavam desempregados ou que optaram pela UHE. A empresa também construiu um imenso alojamento para receber os profissionais que vieram ou ainda virão participar da megaconstrução. A UHE Santo Antônio também realiza monitoramento do processo migratório, promove oficinas, cursos de capacitação, seminários e tem atendido aos pedidos de parceria da Secretaria Municipal de Saúde de Laranjal do Jari que é responsável pela atenção primária.
Também procuramos a Isolux, mas não obtivemos sucesso. Durante a permanência da empresa neste município jamais fomos convidados para participar de qualquer ação ou evento promovido pela construtora do linhão energético, entretanto, já recebemos algumas denúncias sobre a referida empresa, inclusive de moradores do Loteamento Nazaré Mineiro que dependem do igarapé que está sendo afetado pelas instalações da subestação. Precisamos apurar as denúncias de possíveis crimes ambientais, entretanto, fica difícil fazermos qualquer julgamento se a empresa ignora a imprensa.


A pergunta que fazemos neste momento é: depois que estas empresas concluírem suas obras, o que ocorrerá aos seus operários? Certamente uma grande parte ficará na própria região, ou mais precisamente, em Laranjal do Jari, visto que Monte Dourado é um distrito praticamente restrito aos servidores do Grupo Orsa. O fluxo de veículos nas nossas vias aumentou. Também já começam a aparecer as adolescentes grávidas de homens que já ficaram sem emprego e se evadiram! E as DSTs? Na prática, os fatos se repetem dentro de uma história em que cada um é o próprio autor e personagem ao mesmo tempo.

Fonte: Ivan Lopes

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Categorias: Amapá, Laranjal do Jari, Vale do Jari | Deixe um comentário

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